A EMPÁFIA DA SELEÇÃO BRASILEIRA

Ailton Salviano

Em julho de 1969, eu e um grupo de amigos saímos de Natal em um jipe guerreiro e um fusquinha para assistir à seleção brasileira que jogaria em Recife contra a seleção pernambucana. Naquela época, mesmo antes de ganhar o tricampeonato mundial, os jogadores brasileiros despertavam grande admiração, quase idolatria. Entre outros estavam naquele grupo, Pelé, Rivelino, Gerson, Tostão, Jairzinho. O sacrifício daquela viagem de 10 horas seria bem recompensado, tínhamos certeza.

Eram outros tempos. Os jogadores brasileiros que chegavam à seleção se comportavam com dedicação e orgulho de vestir a camisa amarela. A seleção era querida pelo povo, independente da situação política que o país vivia. Os brasileiros, como na música de Miguel Gustavo, formavam um contingente de 90 milhões de torcedores numa corrente positiva com e para a seleção. A nossa “canarinho” era a pátria de chuteiras, como dizia Nelson Rodrigues.

Algumas décadas depois, a magia e o orgulho que a seleção brasileira despertava deram lugar ao desprezo e ao desinteresse dos torcedores. A
explicação para essa resposta da torcida pode estar no comportamento e em algumas ações da entidade que dirige os destinos da nossa seleção. Primeiro, o mercantilismo começou a imperar nos bastidores da entidade. A seleção deixou de jogar no Brasil em troca de dólares advindos de jogos no exterior contra seleções medíocres.

A preferência por jogadores que atuam no exterior tornou-se prioridade. Os raros jogadores que atuam no Brasil quando convocados, havia por trás dessa convocação interesses escusos de mostrá-los para empresários internacionais. E nessa onda mercadológica, os jogadores também viajaram. Garotos egressos da periferia em um passe de mágica tornaram-se milionários jogando nos maiores times europeus. Sem a devida preparação para o sucesso repentino, encheram-se de soberba.

Para muitos atletas, jogar na seleção passou a ser fato secundário ou apenas um detalhe. Alguns até pedem dispensa. Para esses, jogar na seleção não leva a lugar algum. O torcedor brasileiro foi colocado para escanteio, para usar uma expressão comum no jargão futebolístico. Como se não bastasse assistir aos jogos apenas pela TV, o torcedor sequer tem o direito de escolher o canal porque existe um exclusivo que comprou a peso de ouro todos os direitos de transmissão e nos é empurrado de goela abaixo.

Todo este conjunto de ocorrências tornou o torcedor brasileiro arredio e sem muito interesse para com a seleção. Exatamente o contrário acontece em países como Uruguai e Argentina. A vitória do Uruguai na recente Copa América mostrou isso. A seleção celeste sem estrelismo, mas com garra e dedicação, despertou o interesse e o amor do seu torcedor. No dia da partida final, milhares de torcedores uruguaios invadiram as ruas de Buenos Aires.

A entidade que dirige a nossa seleção pode ser hoje uma das mais ricas do planeta, mas em compensação o nosso time está cada dia mais distante do torcedor. Outras modalidades de esportes têm despertado muito mais interesse. Infelizmente, o país do futebol não é mais unanimidade. Estão fazendo morrer a ginga, a magia, a malícia e a malemolência do futebol brasileiro.

UMA PESQUISA QUE ENVERGONHA OS POLÍTICOS SÉRIOS

Ailton Salviano – Publicado em O Jornal de Hoje em junho/2011

Nenhuma suspeita pode pairar sobre a idoneidade do órgão pesquisador. Trata-se da consultoria alemã GFK uma das maiores do mundo. Está presente em mais de 100 países nos cinco continentes com 70 anos de existência e há 22 no Brasil. Duas pesquisas realizadas em 2010 e em 2011 tiveram por objetivo determinar os índices de confiança em várias atividades e profissões no Brasil e em mais 14 países da Europa.

Os resultados apenas corroboraram o que o cidadão brasileiro havia percebido no seu cotidiano. Com 97% de credibilidade entre os brasileiros e 94% quando outros países são incluídos, os bombeiros estão no topo da tabela de confiança. Carteiros e médicos ocuparam respectivamente o segundo e terceiro lugares em ambas pesquisas. Professores do ensino médio e fundamental, o exército, as organizações de proteção ao meio ambiente e pesquisadores de mercado alternaram-se entre o quarto e sexto lugares.

Os jornalistas em 2010 ficaram em quinto lugar; em 2011 caíram para o sétimo. Outras atividades contempladas na pesquisa foram os publicitários, os juízes, as instituições de caridade, os advogados, os diretores de grandes empresas e os funcionários públicos. Nos quatro últimos lugares ficaram os policiais, os sindicatos, os executivos e no final da tabela, os políticos.

Analisando-se esses resultados, a situação dos bombeiros no topo da tabela foi devidamente comprovada com os últimos episódios que envolveram esses profissionais no Rio de Janeiro. Apesar do ato desesperador de indisciplina na invasão do quartel, a classe teve apoio de grande parte da sociedade carioca e a prova disso está no número de pessoas que aderiram às passeatas e às bandeiras vermelhas que tremularam nas janelas de diversos edifícios residenciais.

E o que dizer dos políticos que são a classe menos confiável? O estigma não é só brasileiro; está presente em índices semelhantes nos 10 países europeus pesquisados. Aqui, a sequência de escândalos políticos sem qualquer punição para a maioria envolvida favorece esse status quo. Desvio de verbas públicas, obras superfaturadas, dólares na cueca, compra de votos, recebimento de propinas e mais uma série interminável de atos ímprobos fazem dos políticos uma classe sem confiança.

Enquanto 97% dos brasileiros confiam nos bombeiros, apenas 19% têm confiança nos políticos. Provavelmente, esses 19% são provenientes mais de pessoas beneficiadas pelos cabides de emprego que das atitudes sérias da política. Apesar da larga desconfiança pública na classe política, muitos políticos de comportamento suspeito são inexplicavelmente reconduzidos aos seus cargos eletivos. Aqueles que não conseguem ser reeleitos são agraciados com cargos no alto escalão em um flagrante desrespeito à consciência popular.

Envie o seu comentário para – ailton@digi.com.br

UM PAÍS CHEIROSO

Ailton Salviano

Quem visita Paris obrigatoriamente vai a uma loja de perfumes. A bela capital francesa, além das luzes, chama a atenção dos seus visitantes pelas diversas opções que oferece para os usuários das mais cobiçadas “grifes” de fragrâncias. Não precisa ser um “expert” para saber que “o perfume francês” é o mais desejado em todo o mundo. Quem pretende gastar sem limites vai às “parfumeries” dos bulevares do centro parisiense; quem deseja economizar procura algumas lojinhas nas proximidades da Praça da Concórdia.
Apesar da fama, em termos de venda de perfumes a França não está no topo. Ocupou apenas o quarto lugar em 2009 e 2010. Segundo dados do blog da consultoria Euromonitor (Euromonitor Global Market Research Blog), o Brasil, isto mesmo o nosso Brasil, ocupou em 2010 o primeiro lugar na venda de fragrâncias. Em 2009, os Estados Unidos ocuparam este lugar, mas em 2010 o Brasil movimentou 6,02 bilhões de dólares na venda de perfumes contra 5,34 bilhões dos americanos. Alguns analistas associam esse crescimento brasileiro à valorização do real em relação à moeda americana.
Não obstante este lugar de destaque de liderança mundial, a análise de algumas características do mercado brasileiro pode garantir ainda um horizonte promissor de mais crescimento nas vendas. Apenas duas empresas do setor abocanham 60% do nosso mercado. A diretoria de marketing e vendas de uma delas constatou que apenas 61% dos brasileiros usam algum tipo de perfume. Portanto, existe um campo enorme para ser explorado.
Em termos de consumo de fragrâncias, um outro fato interessante é que as famílias nordestinas superam as do sul na proporção de 9/4. Isto pode provar que o uso de perfumes está mais ligado ao hábito que ao poder aquisitivo. O brasileiro ainda conserva aquele velho hábito na aquisição de perfumes. Independente do preço, muitos usam a mesma fragrância durante anos. Você já deve ter ouvido de alguém: “só uso perfume tal. Se não encontrar ou não puder comprar prefiro ficar sem usar”. Há, realmente, uma fidelidade de consumo como existe nos mercados de cigarros e bebidas.
Dos nossos sentidos, o olfato, depois da visão, é o que guarda por mais tempo recordações. Quem nunca associou determinada fragrância a uma namoradinha da adolescência? No caso das mulheres, acredito acontecer o mesmo. Embora as empresas de perfumes caprichem nas embalagens chamativas para ampliar suas vendas, para o tradicional consumidor o que importa mesmo é o odor com o qual ele se identifica. É algo tão pessoal que o mesmo perfume pode provocar bem-estar para alguns e forte aversão para outros.

(*) Envie seu comentário para – ailton@digi.com.br

A MORTE DAS LIVRARIAS

Ailton Salviano – Publicado em O Jornal de Hoje – edição de 03.04.2011

Não se trata de exercício de futurologia. A severa crise que duas das maiores redes de livrarias dos Estados Unidos enfrentam pode ser um sinal de alerta para estabelecimentos congêneres em outros países, inclusive o Brasil. Tendo que encarar o mercado crescente de versões virtuais, as lojas americanas de livros impressos perderam grande fatia do mercado nos últimos dez anos, acumularam dívidas bilionárias e se viram obrigadas a fechar suas portas.

Em 2010 na terra do Tio Sam, a venda das versões de livros virtuais para leitoras eletrônicas (e-readers, tablets) tipo “ipad” e “kindle” ultrapassou a venda de livros impressos (razão de 115/110). Acrescente-se a isto, a aquisição de livros impressos via Internet, opção cada dia mais usada por leitores acomodados. Embora as livrarias estejam quase sempre com grande número de pessoas, a maioria apenas folheia e lê parcialmente alguns livros, sem adquiri-los.

Ainda nos “states”, em passado recente, as grandes redes de livrarias com suas “megastores” foram consideradas as vilãs da falência de pequenos comerciantes livreiros. Agora, essas grandes redes como a Borders e a Barnes & Noble foram afetadas por este sombrio cenário. Alguns analistas previram esta situação. Segundo eles, essas empresas não se adaptaram a tempo às novas tendências do mercado – sua transformação em lojas virtuais.

Quanto tempo levará para esta situação atingir as livrarias brasileiras? Mais cedo ou mais tarde teremos que enfrentar esse mesmo problema. É fato que o nosso país também é palco de um crescente mercado de computadores com participação de todas as classes sociais. Os “tablets” que permitem a leitura de livros virtuais, embora ainda rejeitados pelos conservadores, deixaram de ser um sonho distante e pouco a pouco estão se transformando em realidade.

Na condição de assíduo frequentador de livrarias e contumaz leitor de livros, temo pelo futuro das nossas livrarias. Há uma semana, estive numa grande livraria em Porto Alegre. Adquiri com 21% de desconto, o livro “Liev Tolstói – Os últimos dias”. Como é normal, era grande o movimento de pessoas no interior da tal livraria, porém poucas se dirigiam aos caixas para adquirir alguma obra, apesar das irresistíveis promoções.

A situação é bem diferente com os vendedores de livros usados, os sebos. Seu mercado continua sem alteração. Seus fiéis frequentadores não costumam apenas folhear obras antigas; a maioria compra. Em Brasília, costumo frequentar um setor da Asa Norte onde existem vários e interessantes sebos. Alguns possuem mais de um andar para a exposição de livros. Mesmo assim, essas lojas dispõem de amplos espaços na Internet oferecendo os seus desejados produtos. São os novos tempos!

*** Envie seu comentário para: ailton@digi.com.br

DE PEARL HARBOR A FUKUSHIMA

Ailton Salviano – Publicado em O Jornal de Hoje – edição de 21.03.2011

Pearl Harbor e Fukushima – dois eventos separados por 70 anos. Período de tempo mais que suficiente para modificar pensamentos, ideologias e comportamentos humanos. Nesta semana em que cenas das catástrofes que abalaram o Japão percorreram o mundo com a velocidade da Internet, uma delas que talvez tenha sido despercebida pelos mais jovens, levou-me à reflexão. Uma frota americana singra o Oceano Pacífico e dirige-se para o Japão. Quão mutável é a espécie humana em todos os sentidos!

No início de 1941, o almirante japonês Isoroku Yamamoto teve a autorização de uma Conferência Imperial para arquitetar um ataque contra a base militar americana de Pearl Harbor no Oceano Pacífico. O Japão considerava que uma guerra contra os Estados Unidos seria inevitável. Motivos políticos e econômicos conduziam as duas nações para um confronto direto. Contrariado pela sua política expansionista aos territórios asiáticos, o Japão retirou-se da Liga das Nações e ainda assinou um tratado com a Alemanha nazista e com a Itália fascista para formar o que passou para a história como os Poderes do Eixo.

Impossível neste exíguo espaço analisar ou comentar todos esses episódios. Porém, o motivo principal deste artigo é o ataque à base de Pearl Harbor. Em 26 de novembro de 1941, uma frota japonesa composta de seis porta-aviões, dotados de 441 aviões de diversos tipos, além de oito reabastecedores e 25 submarinos deixou uma baía nas ilhas Curilas, então pertencentes ao Japão, hoje no domínio da Rússia. Essas ilhas estão bem ao norte do local do epicentro do terremoto de 11 de março de 2011. Certamente também sofreram a ação do sismo e do tsunami.

O trajeto até Pearl Harbor se fez no mais absoluto silêncio. A estratégia do ataque previa a não comunicação via rádio entre os membros da frota e entre a frota e o Japão. Dispostos em algumas linhas na noite do Pacífico, os componentes da frota japonesa eternizaram cenas de filmes americanos e japoneses que exploraram o evento. O ataque se deu na manhã de 7 de dezembro de 1941. Resultado da incursão nipônica: além de profundos danos na estrutura da base, 11 navios e 188 aviões destruídos, 159 seriamente danificados, 2403 militares e 68 civis mortos, 1178 feridos.

Março de 2011. Dias após o terremoto que destruiu o nordeste do Japão, o mundo se estarrece diante de uma profusão de imagens apocalípticas. Países de diferentes ideologias e credos se oferecem para colaborar em socorro às vítimas. Um desastre nuclear se configura com as explosões de usinas nucleares. Dentre elas a de Fukushima. Uma cena marcante: uma frota americana no Oceano Pacífico dirige-se ao Japão para prestar socorro. Ironicamente, faz o percurso inverso da frota imperial que atacou Pearl Harbor em 1941.

* Comentários poderão ser enviados para: ailton@digi.com.br

VOLTAIRE E O TERREMOTO DE LISBOA EM 1755

Ailton Salviano – Publicado pelo Jornal de Hoje (Edição de 5 e 6/03/2011)

Imagine um país extremamente religioso (católico). Uma data santificada – Dia de todos os santos. E ainda, uma época em que a ciência dava os seus primeiros passos. Foi neste cenário que numa sexta-feira, poucos minutos além das 9 horas da manhã do dia 1 de novembro de 1755, a cidade de Lisboa foi abalada por um terremoto que causou um grande número de vítimas fatais (entre 10 e 100 mil).

A família real e muitos fieis haviam assistido à missa matinal desse dia santo quando de repente, a capital lisboeta foi atingida por um sismo que, além da destruição, teve repercussões em muitas áreas do conhecimento humano. Na época, não havia a Escala Richter (surgiu em 1935), estima-se que o abalo tenha atingido a magnitude 9 (10 é a máxima). O fenômeno atingiu também todo o sul de Portugal e o norte da África.

Em Lisboa, o abalo foi seguido por um “tsunami” com ondas gigantescas. Focos de incêndios irromperam em vários pontos da cidade. 80% da cidade foram destruídos: Museus, bibliotecas, igrejas. Na reconstrução da cidade, historiadores afirmam que o ouro procedente do Brasil foi fundamental. Para outros, a elevação dos impostos na colônia teve também o seu papel. Alguns ironizam e afirmam que entre os produtos brasileiros sobretaxados estava a nossa cachaça, do que se induz que o consumo da nossa caninha ajudou a soerguer a capital portuguesa.

Na época desse terremoto, a Europa vivia o “Iluminismo”. O século 18 passou para a história como “Século das Luzes”. Os iluministas acreditavam que os humanos usando o livre exercício das suas capacidades tinham condições de tornar o mundo melhor. Era “o sair da tutelagem que eles mesmos se impuseram”, no pensar do filósofo alemão Imannuel Kant (1724-1804). Ainda no início deste século (1710), outro filósofo germânico, Gottfried Leibniz (1646-1716) havia criado a Teodicéia, tratado filosófico que discutia a bondade de Deus, a liberdade do homem e a origem do mal. Para Leibniz, este seria o melhor dos mundos possíveis.

François-Marie Arouet, “Voltaire” (1694-1774), ícone do Iluminismo e um dos maiores prosadores da língua francesa, foi mestre em todos os gêneros literários. Escreveu poesias nos mais variados estilos (épico, satírico, ode, epístola); peças teatrais (tragédia, comédia, ópera); história, além de contos, sátiras, diálogos e panfletos. Concluiu seus escritos com um Tratado Científico. Filósofo e ensaísta, provocou muitas polêmicas. Segundo o professor inglês Graham Gargett, “Voltaire combateu, atacou e ridicularizou a Bíblia. Mas no final das contas sentiu seu poder e mesmo a atração exercida por Jesus”. (Ensaio “Voltaire e a Bíblia).

Este francês de sorriso macabro, (hideux sourire), no dizer do poeta Alfred Musset, na sua obra “Lettres Philosophiques” (1734) adotou os princípios da física newtoniana em detrimento da física do seu compatriota Descartes. Como sempre, polêmico, com isto provocou uma celeuma e para muitos da época, uma atitude antipatriótica. Recolhido ao Castelo de Cirey a 250Km de Paris, Voltaire durante 15 anos estudou ciência e filosofia com a sua companheira Mme. Du Châtelet. Em 1738 publicou o livro “Éléments de la philosophie de Newton”, obra que até 1785 teve 26 edições. Certamente, Voltaire acreditava que o desenvolvimento da ciência tornaria bem melhores as condições de vida.

O terremoto de Lisboa lhe causou profundo desapontamento. Segundo ensaio dos professores David Beeson e Nicholas Cronk, “esse acontecimento fez vacilar o otimismo e a confiança de Voltaire na capacidade que o conhecimento científico tem de ajudar o homem a controlar seu entorno…”. O fato de a ciência ser incapaz de prever o fenômeno contribuiu para que Voltaire perdesse seu interesse nas ciências físicas. Em 1756, escreveu “Poème sur le desastre de Lisbonne” em que aborda filosoficamente o mal. Em 1759, ao publicar “Cândido ou o Otimismo” retratou um mundo materialista e cruel.

Infelizmente, nos tempos atuais, dois séculos e meio após o terremoto que destruiu a capital portuguesa, com toda a evolução tecnológica, as ciências geológicas continuam sem condições de prever abalos sísmicos. Com o advento da Teoria da Tectônica de Placas, conhece-se em todo o globo terrestre as zonas passíveis desse fenômeno, porém a sua previsão, em termos precisos de localidade, hora e intensidade, é ainda impossível para a ciência.

(*) Comentários para o e-mail: ailton@digi.com.br

UMA GUERRA NÃO DECLARADA

Ailton Salviano

Um estudo divulgado na última quinta-feira (24.02.11) pelo Ministério da Justiça e pelo Instituto Sangari transformou em números e parâmetros estatísticos o que se desconfiava teoricamente sobre a violência no país. É, sem nenhuma dúvida, o retrato de uma guerra não declarada que a população brasileira enfrenta há alguns anos com a complacência das autoridades e sem qualquer esperança de um armistício.

Os números da escalada de violência do período 1998-2008 são impactantes e refletem alguns paradoxos. É público e notório que até bem pouco tempo, dizia-se que a violência estava intimamente associada à miséria, à má distribuição de renda e a outros fatores sociais. Em contra-senso, o estudo demonstrou que no nordeste enquanto a pobreza diminuiu, a violência aumentou 65%.

Nesta matemática da morte, o número de homicídios no país por ano ultrapassou a barreira dos 50 mil. Isto dá mais de 4.100 mortes por mês ou 139 por dia, ou ainda, 7 homicídios por hora. É um verdadeiro absurdo! Nenhum motivo pode justificar um assassinato, porém a sociedade brasileira paulatinamente transforma-se numa aldeia de selvagens onde se mata por motivos fúteis e banais.

Em termos comparativos, nos países europeus os índices de assassinatos por grupo de 100 mil habitantes oscilam em torno de 5 (cinco). Aqui no Brasil, nenhum estado tem esse índice inferior a 10. A média nacional é de 26,4 óbitos por cada 100 mil habitantes. Desde o ano de 1998, esse número sempre foi superior a 26. Nesses valores estão incluídos os municípios interioranos o que reduz em muito a média.

Se considerarmos apenas as capitais, os valores são aterrorizantes. É difícil acreditar, mas das cinco capitais mais violentas do país, quatro estão no nordeste. Maceió é a campeã da violência com 107,1 mortes por grupo de 100 mil habitantes. Recife tem 85,2; Vitória (ES) com 83,9; Salvador com 60,1 e João Pessoa com 60. A nossa Natal (31,1) ocupa o 19º lugar e, pelos números, é mais violenta que Rio de Janeiro (30,0) ou São Paulo (14,8).

Em temos relativos e à luz fria dos números, hoje a probabilidade de ser assassinado em Natal é maior que no Rio de Janeiro ou em São Paulo. Outra informação preocupante é a violência juvenil. A maior parte desses assassinatos envolve pessoas entre 15 e 24 anos. Considerando-se grupos de 100 mil habitantes nesta faixa etária, a média nacional sobe para 52,9, ou seja, o dobro da taxa quando se contempla todas as pessoas,

Infelizmente, é uma situação com futuro sombrio. Entre os deveres do Estado brasileiro, no trinômio saúde-segurança-educação, é difícil dizer-se qual está em pior situação. Enquanto isso, a nossa carga tributária é uma das maiores do mundo. Recolhemos para os cofres do governo, valores semelhantes a um cidadão europeu e recebemos quase nada de volta. Isto pode ser uma das muitas explicações que se tem para justificar esse status de selvageria.

(*) Os comentários podem ser encaminhados para: ailton@digi.com.br

A CANÇÃO MAIS CONHECIDA NO MUNDO

Ailton Salviano – Publicado em O Jornal de Hoje – Edição de 07.02.2011

Será a canção “My Way” na voz de Sinatra? Ou “It´s now or never” na interpretação de Elvis Presley? Será aquela canção romântica “La vie em rose” de Edith Piaf? Ou será “Moonlight Serenade” executada pela Orquestra de Glenn Miller? Nenhuma dessas grandes canções chega perto da popularidade de uma simples composição surgida em meados do século 19 nos Estados Unidos.

Duas professorinhas americanas de um jardim de infância da cidade de Louisiana no estado do Kentucky, criaram uma composição chamada “Good Morning to all” (Bom dia para todos). A música, por sinal muito simples e fácil de ser cantada, era destinada às crianças. Com o passar do tempo, já nos anos 1910, a mesma música passou a ter o título “Happy birthday to you” (Feliz aniversário para você) e todos cantavam por ocasião dos aniversários.

Pois é, essa simples canção tem tradução em mais de dezoito idiomas. É, de longe, a canção mais executada e conhecida na Terra. Aqui no Brasil, a tradução recebeu o título de “Parabéns pra você” e foi concebida pela poetisa paulista de Pindamonhangaba, Bertha Celeste de Mello (1902-1999). Bertha tinha doutorado em Letras e usava o pseudônimo de Lea Magalhães. Escreveu os versos em apenas cinco minutos!

Em 1942 aconteceu um concurso em um programa dirigido pelo compositor Almirante na velha Rádio Tupi do Rio de Janeiro. Até aquela data, cantávamos os versos originais em inglês e Almirante buscava a melhor letra em Português para o “Happy birthday to you”. Dentre as cinco mil traduções concorrentes, um júri formado por membros da Academia Brasileira de Letras escolheu a versão da professora Bertha como vencedora.

A canção original americana está no Livro dos Recordes como a mais conhecida canção americana em todo o mundo. Neste exato momento em que o caro leitor, está lendo este artigo, milhares de pessoas em algum lugar do mundo, independente de nível social, credo religioso ou facção política, se regozijam em torno de um parente ou amigo e cantam alegremente o “Parabéns pra Você”.

E por mera coincidência, lembrei-me que neste 07 de fevereiro de 2011, esposa, filhas, genros, netos e amigos devem estar entoando essa conhecidíssima canção para celebrar os 75 anos de José Jales Sobrinho. Jales desafia o tempo com os seus sonhos. Esteve em quatro copas do mundo. É atualizadíssimo com as novas tecnologias. Domina o Autocad. Ele próprio altera o visual do site da sua empresa. Seu próximo sonho: uma exposição com o mais avançado design em móveis.
PARABÉNS PRA VOCÊ, VELHO AMIGO!

(*) Envie o seu comentário para o e-mail: ailton@digi.com.br

OS ESQUELETOS DO ARMÁRIO

Ailton Salviano – Publicado em O Jornal de Hoje – edição de 31.01.2011

[photopress:SKELETON_IN_THE_CUPBOARD_1_2.jpg,full,centralizado]

Não existe expressão mais apropriada que “os esqueletos do armário” para representar o recente escândalo das pensões dos ex-governadores. Cunhado na Inglaterra da era vitoriana, este chavão, pouco usado no Brasil, mas escrito com certa frequência em Portugal, diz respeito a alguém que guarda um segredo em local não muito seguro e teme não ser revelado para não entrar em desgraça.

Exatamente, o que acontece aqui no Brasil com ilustres parlamentares que foram governadores e escondiam até bem recente, as pensões vitalícias que abocanhavam do erário. Camuflados por legislações estaduais patrimonialistas que vão de encontro à Carta Magna do país, esses senhores permitiam-se receber uma vultosa compensação financeira por toda a vida e com direito a transferi-la para seus descendentes.

Alguns detalhes dessa sórdida realidade são verdadeiros acintes ao contribuinte brasileiro. Primeiro, os privilegiados jamais contribuíram com um centavo sequer para ter direito ao benefício. Outra aberração: nenhuma carência. Em um dos estados onde existe esta vergonha, se o político exercer o cargo de governador apenas por um dia e assinar um único documento oficial, é o suficiente para lhe dar direito à pensão vitalícia.

Como uma luva, os esqueletos do armário se moldam de forma irretocável a alguns pseudopaladinos da moralidade e da probidade que exercendo outros mandatos desfilam pelo Congresso Nacional e bradam a todo pulmão a sua integridade. Alguns, quando indagados pela mídia, justificam o injustificável com evasivas pueris, como se os brasileiros fossem um contingente de idiotas. Essa pensão é legal, dizem. Claro! Quando a lei os favorece é muito fácil cumprir.

Outros se travestem de Robin Hood quando afirmam: “recebo, mas repasso para instituições de caridade!” Não precisa ser jurista para perceber que este tipo de renda é um atentado contra todos os princípios de moralidade de uma sociedade moderna. Por que tanto privilégio? Por que esses senhores se consideram acima do bem e do mal para ter tantas benesses? O pior é que na maioria dos casos, os valores são subtraídos de Estados pobres onde não funcionam a Saúde Pública, a Segurança ou a Educação.

Se essa prebenda tivesse beneficiado um trabalhador comum, tenho plena convicção, que os esforços seriam para exigir a devolução de todo o valor recebido com juros e correções. Como se trata de uma espécie de casta que se encontra no topo da cadeia da mamata, existe um tímido movimento de órgãos oficiais para apenas acabar com tal sinecura. Isto para não ferir suscetibilidades pois atinge políticos de diferentes matizes e ideologias.

As perdas do benefício, pelo andar da carruagem, virão homeopaticamente. Um Estado aqui, outro ali. Até que o Supremo Tribunal Federal exclua definitivamente essa excrescência de todo o território nacional, os beneficiários, lógico, continuarão apegados a esta legislação patrimonialista que tanto denigre a vida política brasileira e os seus ditames democráticos.

Foto: cortesia de Sir Alan Wootton

(**) Por questão de segurança envie os seus comentários para: ailton@digi.com.br
Todos os comentários seão bem-vindos!

Lembrando Sir Winston Churchill

Ailton Salviano
“A desvantagem do capitalismo é a desigual distribuição das riquezas; a vantagem do socialismo é a igual distribuição das misérias.” CHURCHILL

Apesar de muitos obituários disponíveis na Internet não tenham dado atenção à data, esta segunda-feira, dia 24/01/2011, marca o 46º aniversário da morte de um dos personagens mais importantes do século XX. Trata-se do soldado, historiador, escritor, orador, jornalista, estadista e político inglês Sir Winston Leonard Spencer Churchill ou simplesmente Churchill. Embora tenha participado da Primeira Guerra Mundial, foi pelo seu desempenho na Segunda Guerra que é reverenciado em muitas nações livres.

A nossa Natal, tão importante na estratégia das Forças Aliadas, tem no seu centro urbano um Colégio Público que leva o nome desse inglês. É talvez singela, mas muito válida homenagem. Churchill foi responsável direto de incutir indispensáveis sentimentos de patriotismo às tropas aliadas. No auge do bombardeio nazista a sua Londres, usou um programa de rádio para dizer aos seus compatriotas com segura determinação: “Jamais nos renderemos!”

Exímio frasista, certa vez resumiu numa frase todo o seu sentimento antinazista: “Se Hitler invadisse o Inferno, eu cogitaria de uma aliança com o Demônio”. Para os leitores mais antigos que acompanharam durante a II Guerra, o noticiário da estação inglesa BBC, o nome Churchill era muito familiar. A sua figura que aparecia nas revistas e jornais da época tinha um detalhe marcante: um charuto cubano, inseparável objeto que ele sempre conduzia aceso ou apagado.

A propósito desse hábito do estadista inglês, chegou às livrarias brasileiras nesta semana um livro com o sugestivo titulo: “O charuto de Churchill – uma caso de amor na paz e na guerra”. Apesar de inveterado fumante de charutos, detestava cigarros. Tinha pleno conhecimento dos males do tabaco. Semelhante a todos os mortais, Churchill tinha virtudes e defeitos. Foi um contumaz bebedor de uísque, aguardente, conhaque e champagne. Hoje, dir-se-ia alguém politicamente incorreto. Mesmo assim, viveu 90 anos!

Nascido de sete meses, Churchill era descendente de uma família aristocrática. Seus ascendentes paternos pertenciam à linhagem dos Duques de Malborough. A sua mãe era filha de uma milionário americano. Nos três colégios que frequentou, Churchill não fora um bom aluno. De temperamento independente e rebelde sempre teve um relacionamento distante com os pais. Foi Primeiro Ministro da Inglaterra por dois períodos. Ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1953 e tornou-se o primeiro estrangeiro a receber o título de cidadão honorário dos Estados Unidos.

Indagado via correio eletrônico, um amigo inglês me disse que não há nenhuma homenagem prevista por conta desta data. Acentuou ainda que diferentemente do costume dos católicos brasileiros, os protestantes ingleses não celebram aniversários de morte. Concluiu: A grande homenagem foi feita durante seu funeral. Churchill teve um funeral de chefe de estado. Uma estátua sua se ergueu diante da Casa dos Comuns em Westminster.

A verdade é que se famosos filósofos ingleses como Thomas Hobbes, John Locke, David Hume, Adam Smith e John Stuart Mill contribuíram com seus empirismos para o desenvolvimento do pensamento moderno, Churchill entrou para história pelo seu indefectível pragmatismo.

**Por questão de segurança, os COMENTÁRIOS poderão ser enviados para o e-mail:ailton@digi.com.br
Todo comentário será bem-vindo!